Eu odeio a expressão

"cavaleiro de armadura reluzente".

dragão-do-mar

Você não é um cavaleiro e eu não sou uma donzela.

Estou em apuros e posso lidar com isso.

E sou mar, sou rio, sou mangue, sou tempestade.

E você até usa sua armadura, mas certamente não é para derrotar nenhum dragão – suas cabeças recostam no meu colo, eles ronronam e respondem aos seus nomes e nem ouse tocar neles.

É então que você o leva aos seus olhos – um escudo de metal redondo, sujo e acabado. E tudo que consigo ver no reflexo são meus olhos me fitando de volta.

Eu me entrego às mudanças, eu insisto em sentir e ser sentida.

Você age como Manannan em carne e osso, mas ousa se aventurar nas águas e não quer se molhar?

Onde eu sou as ondas, você é a pedra.

Você permanece imóvel e me permite mergulhar

e mergulhar

e mergulhar

até eu quase me afogar.

Então você se ergue da areia movediça da qual fez com seus medos

                               e me carrega e joga sobre o seu ombro.

Chegamos à terra e eu engasgo em seus braços

                              conforme a água sai dos meus pulmões

                                            e eu olho para cima....

                                                            e eu vejo aquilo te inundar.

EU ME SINTO COMO

MEDUSA

QUANDO VOCÊ

ME OLHA ASSIM.

VOCÊ REVERTE

À PEDRA

E SOU LANÇADA

DE NOVO AO MAR

COMO UMA SIRENE

QUE AGUARDA

UM NAVIO A NAUFRAGAR.

Eu não posso prometer oceanos calmos,

ou docas seguras, 

nem o calor do sol. 

Eu não vou me desculpar

por como os raios fulgem

durante uma tempestade.

EU TRANSBORDO

E EU QUEIMO 

COMO MAGMA

DA TERRA.

Eu não sou a donzela,

eu sou o próprio dragão. 

EU FAÇO MINHA CASA

NA PROFUNDEZA DAS ÁGUAS ESCURAS

E ERGO-ME

EXPELINDO UM FOGO

TÃO PODEROSO,

QUE TRANSFORMA SUA ARMADURA

EM CINZAS.

dragão-do-mar

escrita transbordada por Lara Carvalho

em Salvador, Bahia, 2016.

ilustrado para web por Lara Carvalho,

em Salvador, Bahia, 2020.

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