O Sagrado e o Feminino

Muito tem se falado ultimamente sobre o movimento composto por mulheres denominado Sagrado Feminino – tanto positiva quanto negativamente. Com cada vez mais textos, informações, rodas, cursos e vivências do Sagrado Feminino (SF, para abreviar), é fácil colocar todas as práticas holísticas voltadas para mulheres nesse rótulo. Trabalho com terapias holísticas integrativas voltadas para o feminino e por ver isso acontecer com uma frequência maior do que gostaria, resolvi escrever esse texto que expressa o meu ponto de vista sobre o assunto.


Antes do SF chegar ao ponto que chegou hoje, o movimento de Goddess Spirituality (Espiritualidade da Deusa) ganhou popularidade na década de 1970, corroborado pelos trabalhos de mulheres como Carol P. Christ, Marija Gimbutas, Donna Read e Starhawk, para citar apenas algumas das autoras que contribuíram ao tema. O que podemos notar de comum nesses trabalhos e nas práticas (círculos, meditações, danças, terapias energéticas e afins) que deles se sucederam é a compreensão de um sagrado feminino ou divino feminino enquanto código, enquanto estudo de Deusas de diferentes culturas e mitos, enquanto reconexão e respeito aos saberes e às práticas tradicionais e enquanto reconhecimento do feminino como natureza, do espelhamento de mulheres no divino em um período em que as religiões mais populares do mundo reverenciavam a imagem do divino como masculino.


Esse movimento de espiritualidade ganhou força com o movimento hippie, mas é fácil esquecer (ou tornar esquecido) o fato de que o feminino era reverenciado desde o início da humanidade. De que outra forma explicar, no neolítico e paleolítico, antes dos conhecimentos que temos hoje, a capacidade da mulher de gerar vida senão a partir de uma aproximação com o divino? Com o avançar do tempo, novos panteões de deuses e deusas foram desenvolvidos, mas a invasão de outros povos de culturas patriarcais, a invenção da propriedade privada e as perseguições religiosas ocultou as tradições de culto à vida (expressa na natureza, no feminino, no masculino, na vida, na morte e em todas as suas dualidades não-dicotômicas) em prol de uma tradição de culto a um Deus masculino, uno, soberano e onipotente.


O SF passou a ser conhecido sob esse nome e sistematizado dessa forma recentemente e, apesar de ser uma oposição ao mundo patriarcal e capitalista hegemônico, foi rapidamente incorporado pelo sistema capitalista neoliberal.


Agora marcas e pessoas vendem a “experiência” do SF e há um elitismo expresso na oferta de cursos e vivências com valores exorbitantes (quer forma melhor de definir seu público-alvo do que limitar o acesso à sua atividade?). Vende-se a ideia de que o corpo feminino é sagrado sem considerar a interseccionalidade. E os corpos das mulheres não-brancas? E os corpos ditos “fora do padrão”? E os corpos das mulheres trans? E os corpos das pessoas não-binárias? Só mulheres menstruam? E os homens trans, como é a relação deles com a menstruação? E as mulheres que tiveram seu útero ou ovários retirados? E as mulheres que não tem ciclos menstruais ou que não desejam ter crianças, por qualquer motivo que seja?


As opressões operam sobre nossos corpos de formas diferentes a partir de nossas experiências de gênero, etnia, classe social, sexualidade e outros fatores, mas por vezes valoriza-se mais a mercantilização de conhecimentos do que sua tradição, origem cultural e a democratização das informações. Isso não é sagrado, é charlatanismo.


Tudo isso gera diversas distorções nos discursos e nas práticas voltadas para o feminino, por vezes gerando ainda mais imposições sobre como devemos nos sentir sobre nossos corpos e nossa fisiologia. É importante desconstruir os mitos e tabus em cima da menstruação, da sexualidade, da gestação, do parto, da maternidade. Porém é importante também não limitarmos essas questões tão somente ao “Sagrado Feminino”.


É de extrema importância a reintrodução e redescoberta da nossa natureza cíclica e dos arquétipos femininos em sua variedade. A questão é que isso também é política e a política deve ser intrinsecamente atrelada a autocrítica, autoquestionamentos, reestruturação das nossas relações sociais e nossas relações de consumo, dentre outros.


Não devemos lucrar em cima dos saberes e práticas que um dia foram e deveriam ser horizontalizadas (atenção: “lucrar em cima de” é diferente de “receber por”). O que precisamos é tecer juntas espaços seguros para os nossos processos individuais e coletivos, criar um acolhimento entre nós mesmas sem julgamentos, com respeito às dores e aos processos das outras mulheres.


Acho importante também fazer uma diferença entre sacralização e ritualização. A sacralização torna sagrado ou mesmo leva a uma essencialização do corpo biológico feminino, e já vimos o quanto isso pode ser perigoso. Contudo, a ritualização não necessariamente tem a ver com espiritualidade. Um ritual pode ser uma prece ou um escalda-pés. A ritualização se refere a pensar em rituais como fios condutores de nossas experiências, abrindo portas para o lúdico, o criativo e para a nossa intenção de encontro com nós mesmas.


Devido a tudo isso, eu reluto em usar o rótulo do Sagrado Feminino. Respeito, entendo e tenho minhas próprias crenças espirituais do feminino enquanto sagrado, mas não desejo colar o meu trabalho e o meu panteão com as expectativas criadas em cima do SF. Não preciso de rótulos ou nomes para acreditar no que faço, assim como as mulheres que atendo não precisam acreditar em nada além de si mesmas para aproveitarem o máximo da experiência compartilhada.


Nossa existência é essencialmente sagrada, mas precisamos tomar cuidado para não cairmos na armadilha de sacralizar nossos corpos – essa estratégia já é aplicada nos corpos femininos há milhares de anos, na divisão entre santa e puta, sagrada e profana.


Ao invés de pensar o corpo feminino como sagrado, eu prefiro pensar o corpo feminino (e todos os outros corpos, na verdade) enquanto natureza. A natureza tem ciclos, a natureza é mutável, a natureza vive em harmonia consigo. Penso no corpo enquanto território. Enquanto terra fértil, não necessariamente no sentido de gestar uma vida, mas no potencial de criação de ideias, de projetos, de arte.


Isso não quer dizer que devemos necessariamente nos voltar para uma espiritualidade – isso quer dizer pura e simplesmente que devemos respeitar a vida de todos os seres que coabitam nosso universo. Quando aprendemos a conviver com as diferenças e ver beleza na diversidade, isso sim é sagrado.







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